Nem tudo começa com um beijo
22.05.2005
Nem tudo começa com um beijo – Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira
Sinopse:
“O livro apresenta-nos o mundo como sendo uma casa, que tem Cave e Sótão. A Cave são os buracos do esgoto que servem de tecto a Fio Maravilha e a todos os outros meninos que não têm para onde ir. Na mesma linha alegórica, o Sótão é a cidade (que fica por cima do chão e por debaixo do céu). Tem basílicas grandiosas, mesquitas com crescentes dourados, pontes que ligam margens e vidas. E prédios com vista sobre a solidão, onde as pessoas se cruzam nos elevadores, dizem ?bom dia?, ?boa tarde? mas não se conhecem. É num deles que vive Nuvem Maria, a menina dos cabelos de ouro. Fio Maravilha descobriu a paixão em Nuvem Maria. Mas era um amor impossível. Na Cave, Nuvem Maria não era desejada; no Sótão, Fio Maravilha não tinha futuro. Até que um dia um brutal terramoto destrói tudo e todos mata. Excepto Fio Maravilha. Impossibilitado de regressar à Cave, vagueia pelo Sótão e descobre, no meio dos escombros, Nuvem Maria. Partem de barco. Felizes para sempre. A narrativa é acompanhada por duas dezenas de ilustrações que, através de imagens, contam a história em paralelo.“
Reza assim a contracapa deste livro delicioso de Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira:
“E falaram. Durante toda a noite, a manhã do dia seguinte, boa parte da tarde. As palavras derrapavam no céu da boca, tanta era a pressa de serem ditas, falaram de tudo e de mais alguma coisa, tinham um mundo de conversa para pôr em dia, muitos segredos para partilhar.“
Não sei porquê nem porque não gosto de histórias para jovens escritas como se fossem para adultos. Será que é porque foram escritas para adultos? Não é o primeiro nem será por certo o último destes contos que me agarra.
“Para os meninos do esgoto o mundo era uma casa com Cave e Sótão“, no Sótão vivemos nós com as nossas vidas, com as nossas posses bonitas, com os nossos medos e amores, com os nossos pecados e com as maravilhas do mundo moderno; na Cave moram os meninos como nós, que constroem uma vida à margem da nossa ou que foram marginalizados na sua vida pelas nossas.
Fio Maravilha, Gelatina, Sacristão, Amante de Rosa, Domingo, Armando Pantera, Nuvem Maria são personagens que nos apaixonam e que rapidamente nos conquistam pela sua simplicidade, com o seu modo de vida. Sentimentos puros de uma micro-sociedade, a Cave, onde no entanto, é tão fácil revermo-nos e àqueles que conhecemos. Uma metáfora da geração do autor como explica no Posfácio Pedro Ayres Magalhães, e não se enganará… Difícil será não reconhecermos as personagens da ficção quando as encontramos nos no nosso dia a dia.
“Exacto!“, como diria o Bisnaga.



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